Meia vestida,
Meia despida,
Nua na cama,
Com a visão meio tremida,
Vejo os lençóis a enrolarem-se,
A devorarem-se,
Pedindo que os abrassem,
Têm vontade de ser puxados,
Todos enrolados,
Desmanchados,
Enquanto a almofada fala,
Não se cala,
Pede calor quando o frio se instala,
Digo-lhe que vou embalá-la,
Mas não sei calá-la,
Ela não quer os meus braços,
Os meus abraços,
Os meus amassos,
Ela quer outro toque que não o meu,
Quer o carinho que um dia alguém lhe deu,
O sono que um dia se perdeu...
E, quando ela adormece,
Remexe a cama irrequieta,
Como a mão dum poeta,
Quando inspirado a saudade lhe desperta,
E não pára,
Parece até que se vai virar
De tanto se movimentar,
E nela lá vou eu a rolar,
A rolar...
E são segundos,
Minutos,
Horas,
Dias...
São dias,
Tardes,
Noites,
Madrugadas,
Comigo tentando adormecê-las,
No meio dos seus choros,
Pensamentos e desaforos...
O tanto que gritam,
Suplicam,
Comigo até implicam,
Por esse toque que tanto desejam,
E anseiam,
Mesmo que lhes tenha explicado,
Num tom já desesperado
Mas delicado,
Que o toque não irá voltar,
Não tão depressa como estão a esperar!
Aí elas choram,
Choram...
E fugindo delas,
Me envolvo nos lençóis,
Já com os olhos parecendo faróis,
Mas estes fogem de mim,
Tão ferozmente, assim,
E dizem que não ficam sossegados,
Já desesperados,
Enquanto não forem, por ele, abraçados.
Rita *
